Documentário 'Aridez' conta a história do heavy metal piauiense



A cidade era Teresina e o ano foi o de 1982. No Brasil, a ditadura militar caminhava para seu fim, brasileiros choravam a derrota da seleção na Copa do Mundo, e o mundo acompanhava a guerra entre Argentina e Inglaterra pelas ilhas Malvinas. Em meio a esse contexto, na capital piauiense, longe de tudo e de todos, um acontecimento que reverberaria pelos 20 anos seguintes estava se desenhando: a formação da banda Vênus e o nascimento do heavy metal piauiense.

Erick Miranda começou a produção de Aridez em 2013 e lança o doc dia 1º em Teresina (Foto: Pedro Santiago/G1)Erick Miranda começou a produção de Aridez em
2013  (Foto: Pedro Santiago/G1)

Quem conta a história e muitas outras sobre essa insólita cena é o documentário Aridez- Metal Muito além do fim do Mundo, com direção do publicitário Erick Miranda, que será lançado neste sábado  (1º) no Teatro do Boi (assista o trailler acima).

“A história do metal é muito rica e a cidade conhece muito pouco. As pessoas não têm ideia do tamanho da cena, da importância que as bandas daqui tiveram, que tem grupo daqui que lançou discos na Alemanha, Itália, Peru, México ou que a gravadora que lançou o Sepultura nos anos 80 teve interesse de lançar um disco com duas bandas do Piauí”, contou.

A produção do filme foi financiada com recursos próprios do publicitário e começou em 2013. Com farto material de época, como vídeos em VHS, fotos, resenhas de jornal, revistas e fanzines, Erick conta que as bandas tinham pouco coisa, mas que os headbangers conservaram um grande acervo.

“Os fãs tinham jornal de 1987 do (festival) Setembro Rock. Coisas difíceis de imaginar como um cara que tem a tradução do release do Scud feito a mão. Gente que tinha a resenha de jornal do Avalon de 1987. Eles foram a grande fonte de material para o documentário”, contou Miranda.

Mais do que atualmente, no início da década de 1980, Teresina era reconhecidamente uma cidade com ares interioranos dominada por costumes tradicionais e educada musicalmente apenas nos grandes sucessos e ritmos radiofônicos. Sozinhos e nadando contra essa corrente, alguns garotos que gostavam de rock se juntaram para tocar metal e enfrentar a falta de equipamento, de acesso a novos discos, locais para tocar e o preconceito.

Carlinho Pincel, ex-integrante da banda Vênus, de Teresina (Foto: Reprodução)Carlinho Pincel vende um Opala para gravar o disco da Vênus (Foto: Reprodução)

“O filme trata também dessa precariedade, desse preconceito de gente ser preso porque tem cabelo grande e tatuagem. Toda essa opressão acaba contribuindo para a união do metal, que tem essa coisa de comunidade. Era quase como uma fraternidade, todo mundo fazia questão de pagar para entrar no show, trocava fitas. Não havia distinção entre músicos e público. Era todo mundo engajado, o Carlinho Pincel vendeu um Opala que tinha para gravar o primeiro disco da Vênus”, contou Erick.

A banda Vênus e o metal piauiense
O documentário começa mostrando o surgimento da banda Vênus em 1982, que rompeu a barreira do silêncio alternativo que existia na cena teresinense. Dois anos depois encabeçou o Setembro Rock, primeiro festival de metal realizado no Piauí. O grupo lançou disco em 1986 e no ano seguinte chegou a tocar no Theatro 4 de Setembro, que abominava espetáculos de rock na casa.

Ao mesmo tempo que a Vênus fazia a cabeça dos metaleiros de Teresina, surgiu a Avalon e o Megahertz. Os dois grupos gravaram um LP para a Cogumelo Records, gravadora que lançou o primeiro disco do Sepultura.

Apostando na banda, o Avalon se muda para São Paulo, tem que substituir dois integrantes que não quiseram deixar Teresina, lança dois discos, faz dezenas de shows pelo interior do Sudeste. Em curva ascendente com muitas apresentações e boas críticas, o vocalista Ico Almendra vai passar uma temporada nos Estados Unidos e não volta mais. Em meio ao climão pela deserção, acontece um convite para a banda tocar na terra do tio Sam, mas o material com o novo vocalista não agradou e o grupo chegou ao fim.

Esse é momento mais melancólico do documentário, o fim de uma banda que parecia prestes a “acontecer”. “Foi uma tragédia”, disse o baixista William Rodsam. “Passei nove anos sem tocar depois que saí do Avalon”, contou Ico.

A partir daí, o ritmo não para e os anos vão passando pelo filme com o surgimento de muitas outras bandas (Warghart, Scud, Demolidor, Monasterium, Anno Zero etc). O doc termina com muitos entrevistados contando que não se arrependem e que fariam tudo de novo.

“O documentário inicia com a intenção de mostrar a motivação de pessoas que começaram a fazer heavy em uma cidade que não tinha nada parecido. Eles poderiam fazer MPB, mas diante de todas as dificuldades, sem expectativa nenhuma de sucesso e diante do fracasso iminente, eles escolheram fazer heavy metal. Estão aí há 25 anos sem ganhar nada, carregando instrumentos nas costas, fazendo show de graça e as conversas são as mesmas: ‘temos umas música novas e vamos soltar um disco’. O doc acaba e não tem mi mi mi ou chororô. Isso foi uma coisa que me impressionou bastante”, finalizou Miranda.

Lançamento
Aridez – Metal Muito além do fim do Mundo será lançado no dia 1º de abril, às 17h, no Teatro do Boi, na Zona Norte de teresina. Logo após a exibição, acontecerá o Metal Solidário, com as bandas Vulgo Garbus, Megahertz, Anno Zero e Deguella. A entrada é um 1kg de alimento não-perecível.
 





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