'Abolição da escravatura foi processo burocrático, questão ainda está em aberto', diz Emicida




Rapper lança na próxima segunda o DVD ’10 Anos de Triunfo’, sobre 10 anos de carreira. Globo News reprisa neste domingo sua entrevista no ‘Conversa com Bial’ sobre os 130 anos da Lei Áurea. Emicida durante a gravação do DVD ’10 Anos de Triunfo’ José de Holanda Prestes a lançar na próxima segunda-feira o DVD “10 Anos de Triunfo”, que reúne os pontos mais importantes de seus dez anos de carreira, Emicida esteve esta semana no programa “Conversa com o Bial”, onde falou sobre os 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. O tema, presente em diversas letras e de grande interesse para o rapper, um profundo estudioso e conhecedor da cultura negra e dos heróis negros pouco (ou nada) conhecidos de nossa história, rendeu ainda uma entrevista que não foi ao ar. Na conversa, Emicida conta como, ao desconfiar do protagonismo da princesa Isabel, suas pesquisas o levaram a conhecer figuras como José do Patrocínio e Lima Barreto, fala sobre como a escravidão influencia até hoje a sociedade brasileira e porque ainda em 2018 é tão relevante continuar debatendo o tema. Neste domingo (13), Dia da Abolição da Escravatura, a Globo News irá reprisar o programa Conversa com Bial com Emicida, às 21h10, com o tema “130 anos de Abolição”. Leia a seguir a outra entrevista com o rapper sobre o tema. Como você aprendeu sobre a abolição da escravidão e o 13 de maio na escola? Na escola, pelo menos no meu período escolar, não há um ensino muito abrangente a respeito do que foi a abolição da escravatura. Havia uma citação na época quando a data se aproximava e de uma maneira bem superficial, diziam que a partir de então, graças à princesa Isabel, os escravos negros eram livres. Eu achava essa história crível num primeiro momento, depois comecei a ficar meio incrédulo porque desconfiei, achei esquisito a protagonista da liberdade dos escravizados vindos da África ser uma mulher branca. Ai o bichinho da curiosidade me picou e eu fui ler mais a respeito. Descobri José do Patrocínio, uns caras tipo Lima Barreto e mais um monte de gente que lutou pelo fim da escravidão nesse país, mas que a história curiosamente esqueceu. Como você mudou de ideia em relação ao que aprendeu e o que vive na prática? O hip hop sempre foi um movimento questionador, eu também tinha isso por natureza, mas o hip hop me trouxe nomes importantes como Malcolm X e Martin Luther King, através desses caras eu fiquei curioso para saber quem eram os caras que tinham batido de frente com o sistema por aqui, aí descobri João Cândido, Abdias do Nascimento, Ruth de Souza. Então esses personagens norte-americanos acabaram por me conduzir até personagens nacionais e depois até a personagens africanos da história como Patrice Lumumba e Nelson Mandela, Rappin Hood, um rapper de São Paulo que tem uma música chamada “Sou Negrão” – a melhor aula que se pode ter a respeito disso está nessa música. Há algo a se comemorar nesta data? Sinceramente? Sim. É muito importante frisar que o protagonismo dado a princesa Isabel nesta história é equivocado, a circunstância a endeusou, mas, na prática, ela se apropriou de uma luta que já estava cada dia mais sólida em nosso país. A abolição era um movimento mundial, pós-revolta dos malês, pós revolta e vitória do Haiti, que foi o único país do mundo a realmente abolir a escravidão e pagou por isso severamente, o mundo ocidental inteiro já estava sendo cercado por um outro grupo de valores a respeito dos seres humanos. A Inglaterra queria vender a revolução industrial ao mundo e isso foi uma gasolina aditivada nessa pauta, uma vez que os países aliados que mantinham africanos escravizados sofriam sanções, então acho que o único equívoco aqui é a protagonista da história, mas a conquista é real e a abolição da escravatura do ponto de vista burocrático é sim uma conquista. Na prática, existe uma outra problemática profunda onde houveram tanto aqui, quanto em Portugal subterfúgios legais que propiciavam que pessoas trabalhassem de forma semelhante a escravidão, isso infelizmente se estende até hoje, mas uma vez eu vi o Nei Lopes fazendo um versinho muito bonito que dizia: “grite – tanto no 13, quanto no 20”. Acho que ele resume bem o que sinto. Ambas as datas são importantes. O 20 de novembro é muito valioso, pois são agremiações negras impondo um personagem negro como protagonista em uma data escolhida por eles mesmos, isso é muito importante. A princesa Isabel sempre foi vendida como a heroína da nossa história. Quando você começou a ter heróis negros brasileiros? Eu não sei absolutamente nada a respeito da princesa Isabel, apenas que ela “libertou os escravos”. Para mim é muito curioso que não tenham noticiado ou pelo menos eu não tenho conhecimento de outros movimentos dela ligados ao tema, isso me faz crer que a assinatura do documento não tem nada a ver com ela e sim com a circunstância. Eu tenho uma série de heróis e heroínas negros do Brasil, tenho muitos deles tatuados em meu braço, pois gosto de quando vou cantar na TV e eles aparecem. Uma vez fui no Caldeirão do Huck e, em um momento, o João Cândido ficou encarando o Brasil, achei aquilo muito foda. Tenho Carolina Maria de Jesus, Zumbi dos Palmares, Milton Santos, Pixinguinha, João Cândido como já citei, Clementina de Jesus, esses caras e essas minas todos foram super-heróis e super-heroínas. O pessoal que fez o Clube Aristocrata, em São Paulo, é emocionante ver a história deles. Eu tive a honra de conhecer vários e várias das pessoas que fizeram aquilo e isso me transformou num ser humano melhor. Mas ver os desfiles de moda, as festas de 15 anos, que eles faziam quando havia proibição de pessoas pretas na piscina dos clubes importantes de São Paulo como Pinheiros e Tietê. Outro cara fundamental é Abdias do Nascimento, sem ele não haveria um Emicida. Você conhece sua ancestralidade? Sim, com diplominha e tudo, fiz um exame de DNA. Sou uma mescla de alguns povos africanos, tenho um pouco do povo Bebi, que vive hoje nos Camarões e é do tronco Bantu Congo, e tenho um pouco dos Fulanis, ou Fulas, que são o maior povo nômade do mundo e eu me identifico muito com isso por que eu sou muito nômade em minha filosofia de vida, eu encho o saco de um lugar, levanto e saio fora. Curiosamente, sobre os Bubis, eu já sentia algo em especial pela região da África austral, ao constatar que tenho um vínculo de sangue com aquele lugar eu fiquei igual uma besta andando com o resultado do exame mostrando pra todo mundo. Ninguém entendia nada e eu estava felizão de ter achado meus ancestrais! Emicida durante a gravação do DVD ’10 Anos de Triunfo’ José de Holanda Você declarou no programa “Altas Horas”, em uma participação em 2016, que a árvore genealógica dos negros no Brasil foi interrompida pela escravidão. Como isso impactou/impacta sua vida? Uma família é uma base, certo? Se você não tem base não consegue caminhar, a não ser que você seja Jesus Cristo e caminhe sobre algo líquido, sem a necessidade de uma base sólida, caso contrário você precisa de chão, de solidez e essa é uma das coisas mais básicas a que não tivemos direito. É muito mais difícil caminhar sem base, conseguimos realizar o impossível e aqui estamos, mas olha, foi difícil, muito difícil. Existe um sequestro do conceito de intelectualidade que foi cometido pelos europeus e primeiro roubaram nossas almas em pias de batismo em Angola e Cabo Verde, depois nos destituíram de tudo que era positivo sobre nós e nos limitaram a uma história vaga sobre pessoas de pele escura acorrentadas e acostumadas com a vida de servidão, tudo isso era mentira. A África abriu meus olhos sobre isso de forma que nunca mais olhei no espelho e me senti um ser humano menor, a escravidão não é a história das pessoas pretas, a escravidão é a interrupção da história do continente africano, a história do continente africano é mansa musa e as universidades do Mali, o importante porto de Addis Adaba, o reino do Congo que em 1400 era uma democracia com uma constituição super moderna enquanto a Europa vivia dentro do feudalismo, é o rei Mandume, que além de falar todas as línguas de sua região falava inglês, português, alemão e holandês e botou todos esses caras pra correr sozinho durante mais de uma década, a grandeza dos Zulus e tantos outros elementos, que infelizmente não chegaram até a gente no momento em que estávamos nos descobrindo. Na letra de “Boa esperança” você começa com “E os camburão o que são? / Negreiros a retraficar / Favela ainda é senzala, Jão! / Bomba relógio prestes a estourar”. Por que é importante fazer referências a escravidão nas suas composições? Eu digo que a abolição da escravatura foi um processo burocrático, que foi resultado de muitas lutas que já ocorriam fora do ambiente da assinatura, na prática essa questão ainda está em aberto. A escravidão definiu muito das relações que temos no Brasil hoje enquanto sociedade, do fato de nos acharmos superiores a quem varre o chão e limpa os banheiros até a corrupção que nos envergonha dia após dia, tudo tem uma sementinha em algum hábito do período escravista que não foi trazido à luz e, por isso, virou uma bola de neve que continua a crescer até hoje. Então, se a mazela continua presente, minha caneta vai mirar nela para que as pessoas no nosso tempo reflitam sobre isso. O que e onde você enxerga no Brasil de hoje que é herança da escravidão e da abolição sem inclusão? O número gigante de funcionários domésticos que temos mesmo quando não somos ricos. Existe uma afirmação através da quantidade de pessoas que trabalham na sua casa, uma afirmação tosca de grandeza e nossa sociedade ainda vê as coisas assim, é perverso, aquele filme da Regina Casé, o “Que Horas Ela Volta” tem um ponto bom sobre isso. Todas as estatísticas das nossas mazelas sociais têm vínculo direto com a escravidão e com a abolição teórica, então não estamos representados nos espaços de poder, temos menos liberdade financeira e, consequentemente, menos chance de emancipação. Maioria nas cadeias e minoria nas universidades, maioria nas ruas abandonados e pouquíssima representação dentro dos meios de comunicação do país, que quando é conveniente diz em letras garrafais que é o país com maior número de pessoas pretas fora da África. Nós precisamos de uma segunda abolição? Como ela deveria ser? Eu penso que deveríamos refletir sobre a efetividade da primeira e corrigi-la. Eu assinar um documento hoje e dizer “declaro extinto o machismo no Brasil” não faz com que mulheres deixem de receber menos, serem desrespeitadas, agredidas e até mortas por pessoas que foram ensinadas que a vida dos seres humanos do sexo feminino valia menos. Dizer que abomino a homofobia e conseguir que isso se torne uma lei não faz com que esse problema desapareça da noite para o dia. A busca por igualdade, principalmente após 400 anos de usufruto da desigualdade, precisa de outras ações para que possamos entrar em um caminho rumo a um futuro melhor. E isso não é uma conversa fácil, agradável, muito menos rápida. Abre feridas super dolorosas nos pretos e nos indígenas também e coloca uma culpa no colo das pessoas brancas com a qual vocês nem sabem lidar por que nunca foram apresentados a essa perspectiva da vida, mas é nesse lugar dolorido e confuso que vamos achar alguma solução, não no completo silêncio sobre o tema em que estamos até hoje. Nesse contexto, o que você pensa sobre políticas de inclusão como as cotas? Sou completamente a favor e acho que deveria ser expandido para outros âmbitos, como terra, por exemplo. Não há emancipação sem acesso ao chão, sem poder produzir a sua própria comida. Construir sua casa, viver sua cultura, cantar e amar do seu jeito. Então, cotas nas universidades é um grande avanço, nos serviços também é, mas isso precisa ser expandido. Já fizeram uma maldade gigante que foi roubar dos índios mesmo, agora temos que ter a nobreza de compartilhar a terra e as riquezas com os descendentes de quem nunca pode se sentar à mesa junto dos meninos brancos ricos que falam sobre projeto de nação.



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